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20 junho, 2009

Consequências psico

Continuação do post anterior

Como prestar apoio?

Quando uma mulher passa por uma situação de abortamento não há uma palavra certa que possamos identificar como a fundamental.
No entanto, mais do que o que dizemos, é importante mostrar que estamos lá para ouvir, que sabemos ouvir, que estamos disponíveis.

Mas o que devemos fazer para saber ouvir?

- Não falar enquanto o outro fala;
- Evitar movimentos de distracção;
- Concentrar-se no que a outra pessoa está a dizer;
- Não interpretar o que é dito;
- Certificar-se daquilo que foi dito;
- Mostrar ao outro que se está atento.

Para se saber ouvir deve-se procurar escutar o que é dito com assertividade, para tal podemos recorrer às seguintes estratégias:

Audição com expressões verbais de simpatia
- Uh,Uh….
- Sim…
- Concerteza…
- Continue…
- Ah sim…

Utilizar expressões físicas de empatia

- Sorrir
- Acenar com a cabeça
- Jogo fisionómico de acompanhamento
- Olhar de frente sem fixação intensiva
- Ter uma postura semelhante à de quem fala

O que não se deve dizer

Cada mulher apresenta características muito individuais, se há mulher a quem apenas um sorriso ajuda, há outras que é necessário uma palavra amiga. Como já referido, não há frases feitas que se possa generalizar como o que se deve dizer.
Pelo contrário, há algumas frases que devemos evitar. São elas:
- Foi melhor assim, havia alguma coisa que estava errada com o bebé.
- Daqui a uns tempos tentas engravidar novamente.
- Está na altura de esqueceres.
- Daqui a uns tempos já nem te recordas disto.
- Não te deixes ir abaixo, não foste a única que perdeu um filho.
- Agora tens um anjo para cuidar de ti.
Para além destas, há muitas outras frases a evitar. Mostrar acima de tudo, que a pessoa não está sozinha, que tem alguém que a compreende e está disponível.

Consequências psico-emocionais do abortamento espontâneo e morte fetal

Enfrentar e ultrapassar um aborto é uma tarefa que coloca em causa o equilíbrio psicossomático da mulher

A gravidez e um momento especial na vida de uma mulher, uma experiência única para a mulher, para o seu companheiro e para a família em geral. Época plena de mudanças e descobertas de emoções e comportamentos até ai desconhecidos, novas identidades, novos significados existenciais e novos papéis.
Momento de gravidez é também gerador de novas exigências e necessidades afectivas em relação aos outros, em particular, ao filho, a quem a mulher se sente ligada desde o inicio por uma relação de dependência mútuo e progressiva.
Segundo a teoria de vinculação, o desenvolvimento de relações afectivas corresponde a um processo psicológico normativo, adquirido ao longo da evolução filogenética e fortemente enraizada no reportório humano.
A figura de vinculação é permanente fonte de segurança para a criança. Quando se sente ameaçada, busca protecção e conforto junto da mãe, revelando comportamentos de vinculação como o aproximar-se, o choro ou procura de contacto.
Tradicionalmente, prevalecia a ideia de que a ligação mãe-bebé é iniciada por altura do nascimento, no entanto, e contrariando a imagem da passividade psicológica da mulher grávida em relação ao feto, é hoje consensual que se começa a formar durante a gravidez uma relação afectiva ao bebé.
Muito antes do nascimento, existe uma forte união, a mãe sente o seu filho como fazendo parte de si e partilhando consigo uma história recheada de experiências e momentos únicos, vividos a um nível íntimo e exclusivo.
A ligação afectiva é fortalecida ao longo da gravidez em particular a partir do segundo trimestre, altura em que os movimentos fetais começam a ser percebidos.
Por vezes a gravidez não corre bem e surge um aborto espontâneo. A impossibilidade de conhecer um bebé que se amou muito pode ser um evento extremamente complicado para a mãe, pai e a família. Quando ocorre a perda de um bebé, surge um período de dor e sofrimento que a mulher tentará ultrapassar. A perda de um filho é um processo de traumático ligado á perda de um objecto de amor.
Enfrentar e ultrapassar um aborto é uma tarefa que coloca em causa o equilíbrio psicossomático da mulher. A maioria das mulheres que sofre de aborto espontâneo consegue ultrapassar a perda, sem sofrer de perturbações psicológicas associadas.
Mas o aborto pode ser bastante traumatizante, gerando perturbações psicológicas como a depressão e a ansiedade.
As mulheres que sofreram aborto espontâneo são consideradas um grupo de risco e devem ser acompanhadas se existirem indícios de sequelas psicológicas desse aborto.
Alguns dos sintomas apresentados anteriormente são normais no período inicial e fazem parte do processo natural de luto. No entanto, alguns destes sintomas permanecem durante muito tempo, afectando ou comprometendo o regresso à vida normal. Algumas mulheres sentem que jamais poderão ultrapassar a perda.
O Processo de Luto Normal

As perdas experienciadas pela mãe e pai, durante a gravidez ou puerpério geram respostas emocionais específicas, cuja natureza abarca várias manifestações.
Manifestações afectivas

- Tristeza
- Solidão
- Culpa
- Raiva
- Ansiedade
- Apatia
- Choque
- Desespero
- Desamparo

Manifestações comportamentais
- Agitação
- Fadiga
- Choro
- Isolamento
Manifestações cognitivas
- Pensamentos de preocupação com a criança- Sensação da presença da criança associada a alucinações visuais ou auditivas
- Baixa auto
-estima
- Falta de memória
- Dificuldades de concentração

Manifestações fisiológicas
- Perda do apetite
- Insónia
- Queixas somáticas
As respostas emocionais mencionadas estão associadas ao trabalho de elaboração psicológica da perda, conhecido por Processo de luto. Este é um processo de adaptação à perda. É uma experiência profunda e dolorosa, que implica sofrimento, mas também a capacidade de encontrar alguma esperança, conforto e alternativas de vida significativas.
É importante referir que o período de dor e sofrimento correspondente ao luto por uma perda, é normal e deve ser encarado como saudável e necessário. É a sua ausência que merece mais atenção, pois isso pode indicar a presença de uma perturbação psicológica.